Altar não é palco, pelo resgate da ritualização nas cerimônias de casamento

Em 2011, numa época pré-redes sociais, em que os casamentos eram muito parecidos entre si. nascia o projeto Colher de Chá Noivas, na defesa por celebrações com alma e por fornecedores que criassem cerimônias e festas sob medida. com as memórias afetivas do casal homenageadas em cada detalhe. No mundo, o casamento por amor era chancelado por Kate Middleton, que conseguiu incluir muito do seu toque pessoal em um casamento monárquico.

Em nosso guia de fornecedores, o critério principal sempre foi perceber se o fornecedor seria capaz de ouvir o casal, e traduzir em serviço / produto a linguagem daquele amor. O Wedding Lab sempre traz temas – Jane Austen, Leopoldina, Mary Poppins, Victoria, Bríde… –, que funcionam como um desafio criativo para revelar a habilidade de cada expositor em contar histórias com sensibilidade, em entregar algo único, E não repetir fórmulas prontas.

No entanto, isso nunca significou incentivar que cerimônia se transformasse em um espetáculo de entretenimento. Uma cerimônia merece ser investida de entrega, presença e plena atenção para cumprir sua função de “religar”. Se você sobrecarrega sua cerimônia com muitos estímulos visuais e sonoros dignos de um show, isso atrapalha o foco necessário para que a conexão aconteça de fato.

Uma cerimônia com alma precisa de linguagem, de símbolos e palavras — sejam elas litúrgicas, civis ou mesmo as inventadas pelo amor. Pois são estes códigos, muitas vezes ancestrais, ditos com intenção, que acessam o inconsciente coletivo e evocam a metamorfose do self: rompem antigos padrões da psiqué e fazem nascer o novo. O altar pede que namorados se transformem em esposas ou maridos, conscientes deste amadurecimento na relação.

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A leitura do livro “O desaparecimento dos rituais”, de Byung-Chul Han, me fez despertar ainda para uma função social dos ritos. Num mundo cada vez mais acelerado, individualista e virtual, a ausência de rituais esvazia o senso de pertencimento de um povo, e pode gerar individualismo exacerbado, ansiedade e até mesmo depressão. Jung defendia que reencontrar esse elo — através da arte, da espiritualidade, da natureza e dos rituais — é essencial para a saúde psíquica da sociedade.

E, neste contexto, percebo o cerimonialista de casamento não apenas como um gestor de eventos, mas um guardião dos rituais, um tecelão de sonhos, o ponto de equilíbrio entre tradições, tendências e estilos.

o CERIMONIALISTA verdadeiro é um fio de esperança por um mundo melhor, que se orgulha em celebrar a vida, em amadurecer e ritualizar cada novo plot point na biografia, movido por uma elegância afetuosa e integrativa, em nome deste bem maior, chamado amor.

Manoela Cesar

Manoela Cesar é palestrante, consultora, mentora e pesquisadora da História dos Rituais. Sempre que recebe um chamado, também celebra casamentos laicos.

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